Tinta ecológica

Outubro 26, 2010 at 10:37 pm 9 comentários

Estamos na fase de acabamentos após reforma da casa principal na Estação de Permacultura Yvyporã.  Assim,  vou relatar nossa experiência com a produção de tinta ecológica para a pintura do interior da casa.

Mas, antes de abordar especificamente a receita que fizemos, gostaria de esclarecer a importância do uso de tintas ecológicas.

A maior parte das tintas convencionais disponíveis no mercado são produzidas à base de derivados de petróleo, como aguarrás e tíner e liberam hidrocarbonetos aromáticos, que agridem a camada de ozônio e prejudicam a saúde de quem as manipula e o ambiente onde são aplicadas.

Em um nível de menor toxicidade estão as tintas à base de água. Porém, cabe esclarecer que mesmo tendo um solvente ecológico (base água) podem ser encontradas outras substâncias químicas voláteis tóxicas como benzeno, tolueno, xileno, etanol, metanol, octano, decano, undecano, éteres de glicol, policlorobifenil, dibutil fltalato, octoato de chumbo, dentre outros.

Tinta ecológica SolumPortanto, para serem consideradas ecológicas as tinta precisam ser Free Voc (Free Volatile Organic Compounds), sigla usada no exterior para pinturas sintéticas livres de compostos orgânicos voláteis (COVs), que são um dos principais problemas das tintas à base de derivados de petróleo. E ter um mínimo ou preferencialmente nada de compostos voláteis.
Foto: Tintas Solum (www.tintasolum.com.br

Na foto em destaque produtos da empresa Solum. Segundo informações do fabricante o revestimento Solum é um acabamento base água, sustentável e ecológico, desenvolvido com pigmentos de terra para aplicação em substratos diversos, dispensando a massa corrida. Apresentada como REVESTIMENTO FINO, REVESTIMENTO e RESTAURO, pronto para o uso, aplicável em áreas internas e externas possibilitando vários tipos de acabamento.

Segundo informações da IDHEA (Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica), que pesquisa e comercializa produtos diversos para contrução, as tintas ecológicas podem ser de três tipos: minerais, vegetais e com insumos animais (como a caseína, que é um ligante extraído do leite da vaca). Para ser classificada como ecológica, a tinta deve ter seu ciclo de vida avaliado, incluindo dispêndio energético, uso, consumo de água, efluentes gerados, embalagens, descarte e reciclagem de materiais e insumos. A quantidade de solventes e produtos de limpeza que se gastam dentro da fábrica para limpar os próprios recipientes em que se produzem as tintas é levado em conta para se certificar uma tinta como ecológica. E, a rigor, hoje se sabe que só existe um solvente de tipo ecológico: a água.

Como exemplo de tinta ecológica ao alcance de todos eles sugerem a pintura a cal. Ela é praticamente natural, pois só teve a ação do fogo modificando a rocha original (carbonato de cálcio que, após ser queimado à temperatura de 1.200º C, torna-se óxido de cálcio. Depois, pela ação da água, transforma-se em hidróxido de cálcio e gradativamente volta à condição original da rocha). A cal é uma das mais antigas pinturas conhecidas na humanidade. É naturalmente fungicida, sem algicidas ou insumos tóxicos biocidas, e permite a difusão do vapor d’água (ou ‘respiração’) da parede. Ocorre que, por ser originariamente barata e de fácil aplicação, ela teve sua imagem literalmente destruída pelo mercado ávido em impingir produtos de tecnologia mais cara. Realmente, ela tem seus problemas –baixa viscosidade, portanto, escorre e respinga durante a aplicação, apresenta aspecto de “manchado” em dias de chuva, etc. Mas isso pode ser facilmente corrigido tanto em processos artesanais como industriais, sem anular a qualidade ambiental do produto. Fonte: http://www.idhea.com.br/pdf/tintas.pdf

 

Ok? Compreendida a importância do uso de tintas ecológicas? Então vamos adiante…

Conforme mencionei na postagem você pode comprar esse tipo de produto (Idhea, Solum entre outras marcas a pesquisar). E, também pode apropriar-se desse conhecimento e desenvolver sua própria tinta. Em Yvyporã, sempre que conseguimos, esse é nosso caminho preferido.

Até o momento fizemos dois tipos de preparos. Um primeiro preparo incolor, feito com água, polvilho azedo e vinagre, para ser passado em uma parede de tijolos à vista (relato em http://yvypora.wordpress.com/2010/10/03/seguindo-com-a-instalacoes-e-experimentando-tintas/). Na sequência, começamos a experimentar opções para fabricar nossa opção de tinta de interior (semelhante à PVA).

Para a pintura do interior da casa queremos uma cor clara portanto precisamos de uma base branca. Como primeira opção pensamos em aproveitar o preparado de grude e adicionar cal para dar a coloração branco. Contudo nosso teste nesse sentido foi “desastroso”, os materiais não se uniram e a mistura ficou parecendo um leite talhado…

Então, seguimos as experiências, continuamos com a cal, mas decidimos procurar por outro agente aglutinante para aumentar a aderência na base (superar os problemas do uso do cal puro, conforme relatado anteriormente). Sabíamos que a “bába” de cactus é excelente nesse sentido. Assim, pegamos um pedaço de cactus e seguimos a receita abaixo:

Preparo da bába de cactus:Cactus

  • coletamos um pedaço de cactus (mais ou menos 20cmx10cm);
  • tiramos cuidadosamente os espinhos e sua camada externa de pele;
  • partimos o material (sem pele e espinhos) e colocamos dentro de um balde grande com um pouco de água (suficiente para ajudar na maceração);
  • com um pedaço de madeira maceramos (esmagamos) o cactus;
  • fomos adicionando água (em torno de 4 litros) para diluir o material que fica bem denso (consistência de clara de ovo).

Obs.: O rendimento é enorme, com um pequeno pedaço de cactus produzimos 4 litros de bába e ainda poderíamos ter extraído mais…

Preparo da cal:

  • Compramos um pacote de 5kg de cal hidratada para pintura (vendida em casas de materiais de construção, custou R$4,50);
  • Diluímos em 4lt de água (a indicação no pacote era para 10 litros, mas prevendo os outros 4 litros de bába de cactus somam 8 litros. Deixamos assim, para testar e se necessário incluir mais água).

Em seguida misturamos os dois preparos aos poucos para ficar bem homogêneo. A mistura ficou ótima! Rendeu a primeira demão de tinta em um quarto pequeno (em torno de 9m2). Infelizmente eu estava sem máquina fotográfica, mas continuaremos as pinturas por lá. Então, em breve colocarei fotos e novas informações de experimentações de tintas com pigmento e mais adiante os teste de tinta tipo oleo.

Como dica final deixo a cartilha “Cores da Terra: Fazendo tinta com terra” (cartilha cores da terra), desenvolvida em um projeto da Univ. de Viçosa, que achei muito legal! O único detalhe é que na maior parte das receitas é adicionado cola, ou seja,  “plastifica-se” novamente a tinta com inclusão de produtos tóxicos. De qualquer forma é ainda bem melhor que as tintas PVA convencionais!

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PDC – Curso de Design em Permacultura Os números de 2010: síntese enviada pela ferramenta WordPress

9 comentários Add your own

  • 1. Wilker Adriano  |  Novembro 22, 2010 às 10:18 pm

    Oii tudo bem ?
    eu estou fazendo o meu trabalho de termino de curso e gostei do seu artio porque tem tudo a ver com o nosso trabalho gostaria de saber se temos como entrar em contato para que eu possa ter nome do autor do trabalho e o trabalho completo
    Agradeço

    Responder
    • 2. Carapeços Arriada Mônica  |  Dezembro 1, 2010 às 9:45 am

      Olá Wilker,
      A referência que possuo são o material do Instituto IDHEA, que coloquei os endereços na postagem. Assim, você faria a referência direta para esse material que está disponível online. Você também pode entrar em contato com eles!?
      Ou talvez você possa conseguir mais informações com um outro permacultor que conheço, que é bioarquiteto. O Blog dele é:http://www.bioarquiteto.com.br/bioconstrucao/biblioteca/tintas-naturais/.

      Abraços,
      Mônica

      Responder
  • 3. eva  |  Janeiro 6, 2011 às 9:32 am

    como participar da comunidade (como organizaram a chegada) de pessoas que desejam viver aí…. abraços eva telefone ou email para contato seria bem vindo.

    Responder
  • 5. nilioeustaquio de souza  |  Julho 14, 2011 às 4:41 pm

    gostaria de praticipa com novas ideas como pepara o cal ou argila para fazer tinta egologicas

    Responder
  • 6. nilioeustaquio de souza  |  Julho 14, 2011 às 4:46 pm

    gotaria de ajuda na fabricaçao de tintas egologicas

    Responder
    • 7. Carapeços Arriada Mônica  |  Julho 14, 2011 às 8:58 pm

      Olá Nilio Eustaquio,
      A partir das informações que você leu na postagem e da cartilha que disponibilizei você possui dúvidas específicas?

      Responder
  • 8. Barbara  |  Abril 29, 2012 às 8:49 pm

    E que tal utilizar as ideias do Cores Da Terra, e ao invés de cola, utilizar aquela cola com farinha que nossas avós faziam?
    Vou testar!
    Obrigada por compartilharem o processo de produção das tintas e muito sucesso para vocês!

    Responder
    • 9. Carapeços Arriada Mônica  |  Junho 11, 2012 às 3:58 pm

      Oi Bárbara,
      Como foi seu teste?
      Pelo que sei o uso de “grude” é adequado apenas para revestimentos internos.
      Abraços,

      Responder

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